sábado, 31 de janeiro de 2009

Um conto albertianolinscaldas!

Esse conto aí é do ódio da minha vida.
Chama Alberto Lins Caldas e me deu aula durante um tempo.
É doido, varrido mesmo, acreditem!
Mas escreve que é uma beleza!
O conto foi retirado do livro Babel, uma coletânea de contos do mesmo, baseados na literatura ocidental. Alguns já consigo identificar de onde vieram, outros acho que ainda não lí mesmo, e fica por isso mesmo.
Fica a homenagem ao grande mestre do caos.
Essa praga formata a gente! Puta que pariu!

O Novo Senhor

Sua casa era limpa e cheirava aos mais doces perfumes da floresta. De manhã cedo, mal os raios de sol feriam a atmosfera do quarto, estava ela de pé concebendo o dia e os afazeres. Varria o quarto e a sala; preparava o café; olhava o jardim e sorria inteirada das belezas da casa.
Dentro do tempo remexia nos cantos; criava coleções do nada e do caos; podava as arvorezinhas que ultrapassavam seu senso estático; degustava as cores dos minutos e as durações do devaneio; lia um pouco e com extrema e infantil dificuldade um velho e gostoso livro de contos de fada; e sem que percebesse chegava o momento de dormir.
Para ela o mundo passou a existir quando ele chegou. Não chegou simplismente. Arrombou a porta e saboreou o espanto e o pavor provocados naquela criaturinha desprezível acostumada a olhar as borboletas nacaradas do verão e sorrir com os estalidos misteriosos que reboavam no oco das clareiras.
Depois do primeiro susto, quis sorrir, convidá-lo a entrar, partilharem os momentos. Foi interrompida no começo das palavras por uma cadeirada no meio da testa. Acordou triste, ciente da nova ordem instituída em sua casa: lá estava ele sentado á mesa, olhos de fome e um semblante que não deixava dúvida quanto á rapidez com que deveria ser servido. Não pronunciaram palavras.
Notou de imediato que não adiantava discutir. Estava em menor número: possuía linguagem e uma casa construída por ela durante os milênios de saborosa luta com os desejos do mundo. Ele, não. Era sólido, imenso, quadrado como a própria existência. Com certeza não diriam palavras, e isso a feria.
Compreendeu que não conseguiria demovê-lo dos intentos e não acariciariam as horas de cor e distância, grávidas da história que gerava sua vida e as raízes da casa. Preparou o jantar. Na mesa tentou se juntar a ele. Talvez pudessem comer juntos. Levou o primeiro murro como se a morte houvesse chegado naquele momento. Vendo-o comer, chorou derrotada num canto da sala. Choramingou baixo para não ser espancada, chorou por dentro, sem coragem para enfrentá-lo. Depois limpou a mesa, lavou os pratos, varreu a sala e a cozinha. Arrumou a cama e foi dormir no tapeta á porta da casa. Não conseguiu mais sonhar. Logo ela que vivia sonhando sem saber se vivia ou sonhava. Adormeceu como se findasse numa escuridão sem tempo ou espaço.
Não se acostumou mas com o tempo aprendeu a servi-lo conforme seus gostos, sem transtorná-lo antecedendo suas vontades e desejos tão bem que não o via mais chutar os móveis, incendiar suas coleções, nem esmurrá-la até cansar: por caprichos do vento ou das horas. Não queria saber, era melhor servi-lo da melhor maneira. E isso ela fez por tantos anos que já havia esquecido completamente o passado quando o grande, o novo e definitivo senhor decidiu morrer. De repente. Somente morreu. Nada mais.
Naquela hora não quis mais pensar.Abriu no jardim uma imensa cova e o enterrou. Sentou-se em cima e chorou todas as dores da casa que conseguira reunir. Depois se sentou na antiga cadeira de balanço ainda com medo da presença dele marcando as coisas. Quis gritar mas o grito não nascia. Empurrou a cadeira e sentiu a casa balançar no ritmo da cadeira. Agora teria que suportar eternamente a presença de seu cadáver entranhado na memória. A vontade de amá-lo não poderia mais concretizar-se. As possibilidades haviam cessado. Era preciso conviver agora com a nova forma do senhor da casa, eterno em seus domínios.


\O/

Pra quem quiser maiores informações sobre o livro:

Caldas, Alberto Lins
Babel: contos / Alberto Lins Caldas - Rio de Janeiro:
Revan, 2001

Vale a pena ler inteiro!

=********

2 comentários:

alberto lins caldas disse...

lolita é um belo exemplo de inteligência. sabe o q é boa literatura e quem é um professor maravilhoso. além disso é uma força viva q está sabendo não se desperdiçar. e sabe q é muito querida.
obrigado e parabens.
alberto lins caldas

Lolita disse...

Essa pessoa realmente se acha! Albertoooooooooooooooooooooooo te odeio!

hahahahhahaahahaha

é mentira gente!